Púrpura secreta

Quinta-feira, Agosto 26, 2004

não se pode mudar o mundo, pois não

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Apanhamos desilusões, somos enganados, não é aconselhável pôr as mãos no fogo por ninguém. Há miséria e sofrimento, gente a pedir ajuda, dinheiro, atenção, e meio mundo anda a tentar enganar o outro meio. E ninguém pode sozinho salvar o mundo, dizem-me, se ajudarmos um indivíduo, como negar a ajuda a outro, continuam as mesmas vozes, de pessoas diferentes a mesma voz, a mesma impotência talvez, a mesma desesperança. Sei disso tudo e para não me magoar, quer sejam verdade o que me contam, quer esteja a ser levada, o mais sensato seria pôr-me a milhas, fingir que não vi, olhar para o outro lado. Ninguém me censuraria isso. Aliás tenho de o fazer muitas vezes. Olho para o lado, digo não tenho tempo, não tenho moedas, não tenho paciência, todos os dias as mesmas desiguais caras pedindo a mesma coisa, verdade ou mentira nem sei, importará? em algum lado verdade, noutros mentira, os protagonistas esses é que diferem, no tempo e no espaço.
Não sei porque me tocou tanto a história da Filomena. Recebi o mail de amigos há dias. Hesitei. Finalmente telefonei-lhe, a Filomena desesperada de ajuda, coloca a sua morada, o seu telefone à mercê de todos nós, ajudem-me por favor. Venham a minha casa, se quiserem. Falo verdade, sinto-me só, estou doente, sem saber o que fazer. Não tenho pena da Filomena. Sinto solidadariedade com ela e desde ontem que não me sai da cabeça a sua história. Pouco mais nova que eu, portadora da doença de Chron diagnosticada numa fase avançada, falta-lhe o dinheiro para pagar o tratamento e poder criar dois filhos. Inesperadamente dei por mim a trocar números de telefone com ela, a comprometer-me interiormente comigo a, sendo verdade o que diz, ajudá-la. Já enviei a alguns de vós mails expondo o caso difícil que ela vive e há pouco eu e ela partilhámos uma imensa alegria quando ela me diz que tinha acabado de receber um telefonema do director de um jornal diário para uma entrevista.
Ponderei a hipótese de colocar aqui o mail, que a identifica completamente. Apesar das vantagens da divulgação por este meio, optei por preservar a sua privacidade nos blogs, libertando-a nos mails...dir-me-ão que é o mesmo, o mail circula livre por aí, pois é, mas acho preferível protegê-la um pouco.
Não podemos mudar o mundo, pois não. Mas acomodarmo-nos a essa ideia não nos imobilizará os movimentos, e não ficaremos, como dizia há pouco uma pessoa amiga, a secar de solidão e de impotência?
Isto tudo pode ser utopia, verdade ou mentira. Mas há coisas que são maiores que nós e o instinto não se explica. E se os blogs e as páginas pessoais servem para algo mais que para exibirmos o nosso belo umbigo, que sirvam também para fazer serviço público e, modestamente contribuir, não para mudar o mundo, mas para mudar o mundo de uma família.
Obrigada.